Carla Félix

Os anjos do SAMU, crônica de Edelvânio Pinheiro

EDELVANIO PINHEIRO

[Edelvânio Pinheiro]

Enquanto as luzes da cidade reacendem em um eterno carrossel e pelas estradas os faróis iluminam a escuridão até despontar o sol, os anjos do SAMU se revezam, cobertos com o manto da técnica e da sensibilidade. Eles estendem as mãos por entre ferros distorcidos para segurar uma mão aflita, acalmar corações quase rendidos à morte e, com a ajuda de Deus e seus guardiões, se tornam os anjos da Terra.

As equipes do SAMU enxergam a vida nos lugares mais irrespiráveis e semeiam na luz do sol ou na escuridão o milagre da segunda chance, a oportunidade de, ao ser retirado das ruínas, de automóveis em chamas ou de águas torrenciais, alguém tenha uma nova oportunidade para rever antigos tracejos e ideais. É através das mãos dos anjos do SAMU que vidas praticamente perdidas florescem novamente e seguem seu curso perfeito e divino.

Quando ressoa um grito de socorro, a equipe tem a obrigação de chegar ao local na rapidez dos arcanjos e, mesmo sem asas, voar. Além disso, é preciso ser competente, humana e levar a fé junto aos acessórios que são utilizados para reanimar, ouvir o primeiro choro ou até mesmo lamentar as últimas lágrimas. E assim, o trabalho do SAMU vive a realidade de lidar com o nascimento, o renascimento e a morte.

Certa vez, não faz muito tempo, quando um caminhão carregado de bois tombou na BA-290, no local conhecido como “Curva de Queroba”, em Medeiros Neto, tive o privilégio de acompanhar o trabalho de uma dessas equipes, que chegou ao local imediatamente. Naquele momento de pânico os dois agentes trabalhavam com discernimento, competência e sensibilidade. A tranquilidade que eles inspiravam fez com que a vítima se mantivesse tranquila até a retirada dela de dentro das ferragens do caminhão, o que se deu graças ao trabalho semelhante dos Bombeiros de Teixeira de Freitas. Enquanto o socorro era prestado uma chuva torrencial caía, dificultando o trabalho da equipe que, em nenhum momento, perdeu a agilidade e nem deixou a esperança escorrer na enxurrada.

Não os vi fraquejar quando o manto da noite cobriu o entardecer; para eles o dia continuava como se o sol ali estivesse e a chuva forte que caía fosse apenas um detalhe. Durante todo o momento eles conversavam com a vítima, pacientemente e “fé” foi a palavra que mais ouvi. Percebi a técnica intercalando com a sensibilidade em um ritmo perfeito, na mesma cadência de um coração protegido.

A chuva parou tempos depois e o homem estava consciente e calmo, apesar de ter o companheiro morto debaixo do mesmo veículo. A linha tênue que separava a vida e a morte ficou para trás e os especialistas em superação, inclusive os bombeiros, foram embora rapidamente para atender novos chamados. Tudo isso acontece diariamente, em cenários melhores ou piores e, enquanto os anjos terrestres voam com dedicação extrema para salvar vidas, a sociedade cultua os donos do arrocha e dos refrões que pregam a banalização da vida e a ganância.

Todos os dias, ininterruptamente, enquanto a cidade dorme e acorda, os anjos do SAMU, os que de fato deveriam ser cultuados, atravessam lugares intransitáveis e fazem o impossível se tornar possível. Através da técnica minimizam as dores, pela sensibilidade acalmam o espírito, salvam vítimas e desarticulam os ponteiros do tempo até que o momento de extrema tensão fique, definitivamente, para trás.

Através do vidro embaçado de um automóvel, de ferros retorcidos ou em qualquer outra situação em que alguém esteja correndo risco, os anjos do SAMU estarão sempre presentes. E graças a eles, dezenas de milhares de pessoas puderam ver o sol acender novamente, refazer o destino e contemplar o fascinante milagre da vida.

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