Pesquisa mostra como ainda é difícil diagnosticar a endometriose no Brasil
Mulher nasceu para sentir dor. Você ainda não aprendeu a conviver com isso?”, perguntou um ginecologista à supervisora de marketing Karen Nepomuceno, do Rio de Janeiro. Naquele momento, as fortes cólicas que a incomodavam apenas no período menstrual já eram uma realidade em todos os dias do mês. Consciente de que nem ela, nem a mãe, nem suas irmãs ou qualquer outra mulher foi colocada no mundo para isso, Karen partiu em busca de outra opinião. Encontrou uma médica que, com o pretexto de investigar as dores que ela sentia também na bexiga, perguntou: “quantos parceiros sexuais você tem”? A jovem, que naquele ano de 2015 estava com 24 anos, disse que apenas um. “Não pode ser. Isso é coisa de quem tem muitos”. Karen levantou e foi embora, sem deixá-la terminar a consulta com ares inquisitórios.

— Quando uma pessoa fala que sente cólica todo mês, há médico que diz ser normal. Não é. Normal é menstruar e não sentir dor. Mas o grande problema hoje em dia não reside exatamente em saber fazer somente o tratamento. É ouvir a paciente. A partir do momento em que ouvimos, conseguimos pensar na endometriose, examinar adequadamente e pedir exames específicos — diz a ginecologista Rosa Maria Neme, proprietária do Centro de Endometriose São Paulo.
— Deram a desculpa de que eu não estava rendendo o esperado. Eu sabia que era por causa das faltas e tinha consciência de que minha produtividade tinha caído. Eu ia trabalhar sempre medicada — conta Marília.
Principais dúvidas
Desde que ouviu a palavra endometriose pela primeira vez, Marília mergulhou na internet para “juntar o quebra-cabeça”. No Orkut, conheceu outras mulheres com o mesmo tormento e fundou o Gapendi, há 9 anos. O grupo migrou para o Facebook e hoje tem 22 mil membros, que trocam diariamente experiências sobre tratamentos e cirurgias para amenizar sintomas e frear a doença, já que não se pode falar em cura definitiva. Em tempo: Marília, que muitas vezes ouvia dos colegas de trabalho e da família ser tudo “frescura”, precisou de cinco cirurgias. Ela perdeu 10cm do intestino e as trompas. Para realizar o sonho de ser mãe, precisará de uma fertilização in vitro.
O sofrimento de pensar na impossibilidade de gerar filhos, para algumas, é tão dilacerante quanto qualquer cólica. O ginecologista e professor da Uerj Marco Aurélio Pinho de Oliveira recebe cerca de 80 mulheres por mês no ambulatório de endometriose do hospital Pedro Ernesto, no Rio, e garante que essa é a principal dúvida de quem chega lá pela primeira vez.
A associação com câncer é outro questionamento frequente. Muita gente quer operar para que os focos não virem tumor, algo que acontece com pouquíssima frequência.
Para eliminar os pontos de célula do endométrio espalhados pelo corpo, os especialistas trabalham com laparoscopia e, mais recentemente, cirurgia robótica, em que um robô ajuda o médico a ter uma melhor visão do problema.
a endometriose é o hormônio feminino estrógeno, e a progesterona é o antagonista que dá proteção à progressão da doença — explica Rosa.

O fato de a capacidade em diagnosticar o problema ter evoluído com exames de imagem dá uma sensação de crescimento de casos, mas a mudança de comportamento da mulher em relação à maternidade também contribui.
No entanto, em pleno século XXI, mudar os planos de vida não deve ser a saída para nenhuma mulher viver sem dor. O apoio da sociedade e a procura de especialistas dispostos a ouvi-las e entendê-las é o primeiro passo para que a doença não influencie tantos futuros. Afinal, nem Karen, nem Marília, nem eu, nem você, homens ou mulheres, nascemos para sofrer.
No início do século XX, acreditava-se que a doença era causada porque uma parte do endométrio, em vez de descer apenas pela vagina, subia pelas tubas uterinas e caía no abdômen. Hoje, já se sabe que não há apenas essa relação para explicar o aparecimento da endometriose. Por isso, a histerectomia não é solução. “Antes, tirava-se o órgão; hoje, removem-se os focos da doença”, diz Rosa Neme. O fato de a atriz Lena Dunham ter escrito um textona “Vogue” americana sobre ter retirado o útero aos 31 anos por causa das dores da endometriose deixou ainda mais gente confusa. “Nos EUA, eles ainda fazem isso. O tratamento aqui é mais conservador e eficaz ”, diz a ginecologista.
Apesar de a cólica menstrual ser o sintoma mais frequente, nem sempre ela está associada à doença. As dores podem ser provocadas por outras inflamações na pelve, cistos, miomas e alguns tumores. Mas, quando o paciente se queixa de dor, mesmo em graus mais leves, o médico precisa considerar a possibilidade de endometriose.
Exercícios aeróbicos de média e alta intensidade liberam bastante endorfina, que, por sua vez, inibe a atuação do estrógeno. Como a endometriose é ligada à ação desse hormônio feminino, a atividade física é um coadjuvante interessante no tratamento. Além disso, melhoram a imunidade, inibindo o aparecimento e crescimento da doença, já que uma das hipóteses para o desenvolvimento da endometriose é uma alteração do sistema imunológico da mulher.
Uma alimentação saudável é a base para o cuidado de diversas doenças, e com a endometriose não é diferente. No entanto, não existe uma dieta específica. É preciso evitar alimentos com estrógeno (como frangos criados em confinamento) e soja. Recomenda-se também pouco glúten devido ao efeito inflamatório intestinal, que pode contribuir para a distensão abdominal e dores na mulher com endometriose.