‘Replicar não é sinônimo de proteger’, diz psicanalista sobre atitude de pais em relação à boneca Momo

Narrativas de medo “seguidas pelo instinto de proteção dos filhos” são parte da história social, e não uma novidade da era digital. Psicanalista especializada em relacionamento familiar, Mônica Donetto Guedes, diz que o que torna o momento atual diferente é a existência de diversas ferramentas para averiguar e conter tais narrativas, como a do desafio da boneca Momo. O mais importante, afirma, é conversar com os filhos.
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Como lidar com uma situação como essa da boneca Momo sem propagar medo?
Não podemos deixar de considerar que o mal existe desde sempre. Em toda a História, vamos encontrar narrativas que são motivadas por esse desejo de desconstruir, de causar pânico. A grande diferença é que, há poucos anos, não tínhamos recursos para averiguar provocações desse teor ou saber a extensão delas, porque eram fenômenos isolados em comunidades, como aquelas histórias de medo que as crianças contavam entre si na infância e que ficavam restritas a uma vizinhança. Essas histórias perversas, que surgiam em proporção pequena, hoje ganharam uma dimensão gigantesca. Ao mesmo tempo, temos mais ferramentas para lidar com isso.
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Qual é a atitude adequada?
A primeira coisa é manter o controle. O pânico é justamente a perda do controle, a sensação de que algo nos escapa. E, com as redes sociais, o que poderia ser um pânico individual pode se tornar coletivo. Nesse mundo de imediatismo, quando eu recebo a informação, confio e repasso sem questionar:
“Isso faz mesmo sentido?”.
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Então o primeiro cuidado é não agir impulsivamente?
Sim, as pessoas estão muito imediatistas, querem resolver o problema e acham que, de repente, estão fazendo um trabalho social. Mas, com essa ação impulsiva, acabam sendo mais um instrumento de propagação do medo. Quando agimos por impulso, o que era uma tentativa boa sai pela culatra. O mais importante é pensar antes de compartilhar e pesquisar.
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Por que se compartilha algo assim de forma imediata?
Eu vejo muito no consultório os pais um pouco perdidos com tudo o que é ligado à tecnologia, às redes e aos games. Ouço muito as perguntas:
“Quanto tempo devo deixar meu filho no computador?”
“Como isso vai impactar no desenvolvimento emocional dele?”
E, já fazendo um mea culpa, os pais me dizem:
“Preciso agir, preciso fazer algo a respeito.”
Me parece que esse mesmo mea culpa aparece neste momento em que os pais replicam uma informação tentando proteger os filhos. Reproduzir não é alertar, replicar não é sinônimo de proteger.
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Como os pais podem de fato proteger as crianças?
É preciso conversar com os filhos. E refiro-me não só a falar, mas, sobretudo, ouvir. Não adianta chegar para a criança e reproduzir a história que recebeu no WhatsApp. Deve-se, por exemplo, perguntar:
“Você já ouviu falar disso?”
Assim, a criança tem a chance de responder, se sente parte de uma conversa.
Edição Bell Kojima/Repórter Coragem