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Designer afegão cria detonador de minas movido a energia eólica

23/06/2013 - 00h23

Os visitantes que percorrem o Museu de Arte Moderna de Nova York veem obras-primas de artistas como Picasso, Monet e Rothko. E podem também se deparar com algo que lembra uma moita seca do tipo que o vento leva rolando pelos campos.

O objeto não é apenas uma escultura digna de figurar num museu. É o Mine Kafon, um inovador detonador de minas terrestres, movido a energia eólica e criado pelo designer afegão Massoud Hassani, de 30 anos. O Mine Kafon está sendo exposto atualmente na mostra de Design Aplicado do MoMA.

“Mas isso é engraçado, porque não é uma obra de arte, e eu não sou artista”, diz Hassani.

A organização humanitária Care estima que minas terrestres matem ou mutilem quase 26 mil pessoas por ano, ou cerca de 70 por dia. Hassani diz que as minas são um problema em grande medida esquecido, apesar de existirem estimadas 110 milhões de minas ativas plantadas pelo mundo afora. O Afeganistão lidera a lista dos países mais afetados.

O Mine Kafon pesa 70 quilos, tem 190 centímetros de diâmetro e é montado manualmente, sendo feito de bambu e plástico biodegradável. A pressão dos pés plástico na extremidade das varas de bambu detona as minas terrestres enquanto o detonador rola pelos campos minados, carregado pelo vento. Hassani projetou o aparelho para resistir a duas a quatro explosões antes de ser destruído.

Quando Hassani e seu irmão eram garotos, no Afeganistão, criavam brinquedos com objetos encontrados no lixo e qualquer outra coisa que conseguissem encontrar no povoado. Suas criações favoritas eram brinquedos que rolavam, levados pelo vento; os garotos apostavam corrida com os brinquedos, que frequentemente eram carregados pelo vento para campos minados, onde alguns dos amigos de infância de Hassani acabaram morrendo.

Depois de fugir do país aos 14 anos, Hassani passou pelo Paquistão e a Rússia, antes de radicar-se na Holanda.

Ele se matriculou numa escola de design holandesa, e foi ali que nasceu o Mine Kafon, cujo nome significa “deixe as minas explodirem”. Hassani tinha criado muitos protótipos de pequenos brinquedos de vento, baseados nos brinquedos de sua infância, e dizia, como piada, que deveria usá-los para detonar minas. Seu professor achou que seria ótima ideia e o incentivou a desenvolver o projeto.

“Cada produto é relacionado à personalidade de quem o faz”, diz o designer. “Pelo fato de eu ter tanta experiência com aqueles brinquedos e ter feito tantas pesquisas, foi muito fácil traduzir a ideia em um produto.”

O jovem designer trabalhou com as forças armadas holandesas para testar os primeiros protótipos que criou.

“Na primeira vez foi duro ver meu objeto detonado. Eu tinha passado muito tempo fabricando o protótipo e então, bum! Ele se foi”, disse Hassani. “Geralmente as pessoas fabricam cadeiras ou coisas desse tipo. Penduram um cartaz nelas dizendo ‘não toque’. Em nosso caso, explodimos o protótipo inteiro.”

As forças armadas holandesas suspenderam seu envolvimento com o projeto após um período breve de testes nos desertos do Marrocos, em 2012, dizendo que a precisão do Mine Kafon ainda não atende a seus padrões de qualidade. Declararam que os métodos humanos de varredura de minas, embora mais perigosos, são mais eficientes. Mas Hassani disse que foi incentivado a levar seu trabalho adiante, mesmo assim.

Os métodos comuns de desativação de minas podem custar até US$ 1.000 por mina. Quando o protótipo tiver sido aperfeiçoado e puder entrar em produção industrial, o Mine Kafon poderá custar apenas US$ 40 cada unidade. Hassani diz que sua criação, que pode ser montada pelo usuário no próprio local onde será empregado, seria ideal para ser usado por organizações humanitárias.

Em dezembro do ano passado Hassani lançou uma campanha online de 30 dias para levantar fundos para o desenvolvimento do detonador. Apesar de ter acontecido no período das festas do fim de ano, a campanha levantou 20% mais que o valor visado, chegando a um total de US$ 187 mil. Hassani considera que o grande apoio público dado ao projeto é sinal de que ele é necessário.

Entre os aprimoramentos que ele gostaria de implementar estão um protótipo de Mine Kafon cilíndrico e outro que seria movido a motor, possibilitando controle maior do usuário e reduzindo a dependência do vento, cuja ocorrência é incerta. Como o modelo atual foi projetado para uso apenas em terrenos desérticos, Hassani quer desenvolver novos protótipos apropriados para paisagens diferentes também semeadas com minas terrestres, como, por exemplo, as do Vietnã ou de Angola.

Fonte: Folha de São Paulo

Ainda este ano, quando completar as modificações, o designer vai testar seu “brinquedo de vento” novo, aprimorado e muito maior no local onde a ideia nasceu: os campos minados de sua infância, no Afeganistão.


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