Brasil é único país do mundo a ter bebê gerado em útero transplantado de doadora morta
Uma menina paulistana prestes a completar 1 ano de idade é a primeira criança, no mundo, gestada por uma mãe que recebeu um útero de uma doadora falecida. O procedimento de sucesso ainda único no planeta foi realizado por uma equipe do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo no ano passado, e agora está sendo oficialmente relatado em artigo publicado ontem no prestigiado periódico científico médico “The Lancet”.

Vítima da chamada Síndrome de Rokitansky, a analista de recursos humanos X — que pediu para não ser identificada — só descobriu que tinha nascido sem útero aos 25 anos, após conhecer o atual marido e pai da criança.
Ledo engano. Então, os médicos Dani Ejzenberg e Wellington Andraus, do Centro de Reprodução Humana do HC da USP, que já tinham começado a trabalhar na técnica em experimentos com ovelhas, seguiam para Gotemburgo, Suécia, justamente para curso com Mats Brännström, profissional que liderou o desenvolvimento do procedimento na universidade da cidade.
— Ficamos lá uma semana e ele compartilhou o protocolo para uso da técnica em humanos — conta Ejzenberg.
Procedimento de sucesso ainda único no planeta foi realizado por uma equipe do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo no ano passado, e agora está sendo oficialmente relatado em artigo publicado ontem no prestigiado periódico científico médico “The Lancet”. Foto: Divulgação
De volta ao país, os médicos brasileiros continuaram seus estudos com animais, mas também logo iniciaram as tratativas para fazer as primeiras operações em humanos, com uma diferença fundamental: os úteros viriam de mulheres falecidas. Até então, todas as poucas histórias de sucesso do procedimento, com o nascimento de crianças vivas, no mundo tinham sido de transplantes do órgão de doadoras vivas.
Isto, porém, não assustou Ejzenberg e Andraus, dispostos a evitar seus consequentes problemas, sendo os principais a dificuldade de obter as doações e os riscos que a operação de retirada do útero representa para as doadoras.
— A vantagem de uma doadora falecida é que não temos o risco cirúrgico na retirada e ela é mais simples, mais curta e com um custo menor — destaca Ejzenberg. — Mas o mais importante é que isso ajuda a universalizar o acesso a esta opção. Para ter uma doadora viva, é preciso que em geral uma amiga ou parente se disponha a doar seu útero. Já o útero de uma falecida pode ser retirado junto com outros órgãos pelas redes de captação existentes.
Processo que duas mulheres com o mesmo problema de X aguardam ansiosamente que aconteça para terem a mesma alegria que ela junto da filha.
— Eu e meu marido estamos muito felizes — diz. — É um sonho realizado. Para estas mulheres que estão na fila, digo para não perderem a fé nunca. Hoje estou com minha filha nos meus braços, e amanhã podem ser elas.
