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Semana Especial: Como a violência doméstica interfere na vida dos seus filhos.

17/08/2018 - 09h38

Estatísticas populacionais dos Estados Unidos indicam que 29,4% das crianças de lares biparentais vivem em uma família na qual ocorreu violência entre os pais no decorrer do último ano. Mesmo quando as crianças de lares violentos não são o alvo direto do abuso, frequentemente são envolvidas na violência de seus pais de outras formas que as colocam em risco. As crianças correm riscos físicos quando intervêm nos conflitos entre os pais, ou são envolvidas acidentalmente no “fogo cruzado”. É possível também que sofram estresse psicológico, especialmente quando são colocadas na posição de denunciar a violência às autoridades e, até mesmo, de testemunhar contra um dos genitores em procedimentos legais.

Do que se trata

É importante dar atenção ao testemunho de crianças, porque a violência doméstica é mais provável em famílias com filhos, e especialmente com filhos menores de 5 anos. A violência é mais frequente na relação inicial de convivência doméstica, quando as crianças são pequenas. Crianças que vivem em lares violentos costumam assistir, ouvir e intervir em episódios de violência doméstica.

Há evidências crescentes de que crianças que presenciam violência doméstica correm risco de enfrentar diversos problemas psicossociais. Na verdade, os problemas observados nessas crianças são semelhantes àqueles observados em crianças que são vítimas diretas de abuso físico. Uma vez que testemunhar violência doméstica pode aterrorizar as crianças e perturbar significativamente sua socialização, alguns especialistas passaram a considerar a exposição à violência doméstica como uma forma de maus-tratos psicológicos.

Problemas

As crianças podem reagir de muitas maneiras diferentes ao presenciar violência doméstica: podem intervir, se isolarem ou se tornarem agressivas. Esses comportamentos podem ser adaptativos no contexto da violência familiar, mas são desajustados em outros contextos. Crianças que presenciam violência doméstica correm risco de enfrentar diversos problemas psicológicos, emocionais, comportamentais, sociais e acadêmicos.

Nem todas as crianças expostas à violência doméstica apresentam níveis importantes de desajustamento. No entanto, essas crianças ainda podem vivenciar problemas menos severos que as colocam em risco de dificuldades psicológicas ou interpessoais posteriores. Por exemplo, podem ter atitudes inadequadas a respeito de violência como forma de resolver conflitos, podem ser mais propensas a utilizarem a violência, e podem ter crenças fortes de que são responsáveis pelos conflitos entre seus pais.

Questões-chave de pesquisa

A agressão branda/moderada deve ser diferenciada de agressões mais graves? Em muitos estudos, formas mais extremas de violência (estrangulamento, pancadas) não são diferenciadas de formas mais brandas (empurrar, dar um tranco). Essa distinção pode ser útil, tanto em termos de documentação dos efeitos da violência quanto em termos de compreensão dos mecanismos subjacentes a esses efeitos.

Por quais mecanismos o fato de presenciar violência doméstica resulta em perturbação do desenvolvimento? A exposição a formas menos graves de agressão pode afetar as crianças por meio dos mesmos processos identificados na pesquisa sobre conflitos familiares em geral, incluindo efeitos diretos, devidos à falta de regulação comportamental e emocional das crianças, e efeitos indiretos, devidos a problemas com os cuidados parentais. Agressões mais graves tendem a ser traumáticas para as crianças, e por esse motivo os processos pelos quais produzem efeitos podem assemelhar-se mais àqueles identificados nas pesquisas sobre abuso e negligência na infância do que àqueles identificados nas pesquisas sobre conflitos familiares.

De que forma devem ser medidos os resultados da criança? É importante documentar não só os níveis clínicos de angústia, mas também a angústia subclínica das crianças, assim como a resiliência diante da violência familiar. Assim, é importante que pesquisas futuras avaliem as competências mais perceptíveis em cada estágio de desenvolvimento das crianças, tais como apego, relações com pares e adaptação bem-sucedida na escola.

Resultados de pesquisas recentes

Foram analisados 118 estudos empíricos que examinaram o ajustamento psicológico de crianças que testemunharam violência doméstica. Os resultados mostraram que 63% dessas crianças apresentavam piores resultados do que a criança média que não foi exposta à violência entre os pais. Seus problemas incluíam agressividade, ansiedade, dificuldades com pares de idade e problemas acadêmicos, todos em grau semelhante. Evidências limitadas de um pequeno número de estudos sugeriram maior risco para crianças em idade pré-escolar. Para crianças de todas as idades, foram observados níveis semelhantes de desajustamento naquelas que haviam presenciado violência doméstica, que tinham sofrido abuso físico e que tinham enfrentado os dois tipos de experiência.

Conclusões

Crianças expostas à violência doméstica estão em situação de risco devido a uma série de problemas psicossociais, mesmo quando não são o alvo da agressão física. Esses problemas são semelhantes àqueles observados em crianças que sofrem abuso físico, o que sugere que qualquer tipo de violência na família pode prejudicar o desenvolvimento da criança. Há algumas evidências que sugerem que o risco é maior para crianças mais jovens, presumivelmente devido a suas limitações para a compreensão de conflitos e para desenvolverem estratégias para lidar com a situação. É necessário que as pesquisas incluam medidas mais precisas de violência – por exemplo, diferenciando agressões brandas e severas; múltiplos fatores de risco – por exemplo, utilizando controles para a ocorrência de abuso de álcool pelos pais; e resultados – por exemplo, identificando angústia subclínica que pode colocar a criança em risco de problemas posteriores.

Tratamento

As intervenções devem focalizar tanto os efeitos diretos da exposição à violência doméstica – por exemplo, ajudando as crianças a aprenderem a lidar com estressores associados à violência familiar – quanto os efeitos indiretos decorrentes de cuidados parentais ineficientes – por exemplo, ajudando os pais a oferecerem estímulo e disciplina consistentes, apesar dos transtornos provocados pela violência.


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