Cidadania

Videoclipe de Cassiane romantiza violência e mulheres evangélicas se mobilizam

25/07/2020 - 15h37Por: Laís Vitória Cunha de Aguiar/Jornalistas Livres

Cassiane

A gente tá se unindo pra dizer que sabemos o que estão fazendo, e não vamos ficar caladas. Nós sempre resistimos dentro das igrejas, mas com o passar do tempo fomos crescendo, nos formando, e agora estamos mais unidas, nos tornando um movimento social [sic]”, explicou a jornalista Diana Gilli Bueno, 37 anos, membra do recém criado “Movimento de Mulheres Evangélicas do Brasil” (Mosmeb), da igreja Liberta-Igrejas Libertárias.

Como resultado da primeira plenária ampliada do “Movimento de Mulheres Evangélicas do Brasil”, tivemos protocolada na tarde desta sexta-feira, 24 de julho, uma representação criminal contra a gravadora MK no Ministério Público (MP) do Rio de Janeiro. Com assinatura de 69 movimentos de mulheres cristãs, evangélicas, temos o começo de um movimento social importante para a luta contra o feminicídio e pela independência feminina.

“A Voz”

O vídeo da música “A Voz”, da cantora gospel Cassiane, lançado no dia 17, já teve 2 versões, e uma pior que a outra: na primeira a mulher larga o marido depois de ser agredida, mas deixa uma bíblia com um bilhete. O homem se converte e ao final eles voltam a ficar juntos. A diferença no segundo vídeo (que já tem 33 mil dislikes, o primeiro, antes de ser tirado do ar tinha cerca de 99 mil dislikes), é que ela liga para o 180 e seu marido e preso, mas depois é solto, encontra a bíblia e volta para a esposa, que o perdoa.

(…) Que perdão é esse que exime o agressor da responsabilidade? Que perdão é esse que ele vai continuar cometendo a agressão? O evangelho é libertador, a mulher não deve ser escravizada“, disse a pastora metodista Revda Ione da Silva, como porta voz do “Movimento de Mulheres Evangélicas do Brasil”, em uma entrevista sobre a plenária e o vídeo na tarde de hoje.       

Estamos unidas com as comunidades das mulheres de diversos movimentos, desde a ‘Aliança de Negras e Negros Evangélicos do Brasil’, a ‘Rede de Mulheres Negras Evangélicas’, até ‘Mulheres Contra Bolsonaro’ (MUCB), e ‘Mulheres que Derrubam Bolsonaro’.

“Movimento de Mulheres Evangélicas do Brasil”

A diversidade do grupo, segundo Diana, é grande, apesar da maioria do movimento ser formado por mulheres negras.

O vídeo em si manifesta um problema bem sério: segundo a pesquisa da teóloga e doutora Valéria Vilhena, de 2008, 40% das mulheres brasileiras que sofrem violência doméstica são evangélicas.

É um número alarmante, “é a naturalização da violência“, explicou a pastora Ione, “é a romantização da violência“, complementou Diana, que nos contou que essa questão do perdão é romantizada pelas igrejas, que colocam como se a mulher sempre tivesse que perdoar o agressor voltando para ele: “é um tipo de narrativa que eles colocam e a gente já conhece, a diferença é que agora estamos unidas para lutar contra isso. Tem muita mulher que não percebe o que está errado no vídeo, então decidimos fazer um vídeo explicando.”

Veja o vídeo abaixo:

Esse movimento visa continuar a luta pela liberdade das mulheres, contra os discursos- seja lá em que instância do poder- que tratam as mulheres como escravas.

E mais, como disse a pastora Ione, elas querem partir para a ação: “a gente quer continuar essa mobilização, trabalhar para que as mulheres tenham ferramentas para denunciar, a ideia é não ficar parada. Vamos continuar com esse movimento e entrar cada vez mais nas comunidades“.

Edição: Bell Kojima


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