Bahia

Jutahy insiste em manter o PMDB na oposição

19/03/2012 - 18h44

Liderança do PSDB baiano, o deputado federal Jutahy Magalhães sinaliza que tem sido um dos conciliadores na busca pela união das siglas oposicionistas no Estado. No entanto, deixa claro que o atual contexto político do PMDB, aliado em âmbito nacional com o governo do PT, tem sido o principal impasse para a concretização do projeto. “Essa é a principal dificuldade de nos coligarmos e termos uma aliança já no primeiro turno”, disse.

Embora tenha aberto a situação, Jutahy considera os peemedebistas essenciais para o grupo oposicionista no Estado, e classifica como remota uma reaproximação da sigla com os governistas estaduais. Segundo ele, as lideranças do PSDB, PMDB, DEM e PR devem buscar até o último momento se unirem no intuito de enfrentarem a hegemonia do PT.

Ele fez duras críticas ao partido ao dizer que o PT “se comporta como um exército de ocupação nas estruturas governamentais”, além de tentar censurar a atuação da imprensa. Por fim, Jutahy dispara contra a gestão de Salvador: “João Henrique é o mais desastroso prefeito que a cidade de Salvador já teve”. 

 Tribuna da Bahia – O PSDB já foi criticado pela demora em se posicionar para a próxima eleição municipal e depois resolveu anunciar o nome do deputado federal Antonio Imbassahy. Qual o objetivo do partido nesse pleito?

Jutahy Júnior – A grande luta no Brasil e na Bahia hoje é enfrentar a tentativa de hegemonia do PT. O que é essa hegemonia para que as pessoas possam ter ideia de seu significado? Primeiro, é o controle público do Estado brasileiro a serviço de um partido. Trata-se do aparelhamento do Estado a serviço do PT. O PT se comporta como um exército de ocupação nas estruturas governamentais. A segunda estratégia desse partido tem sido a de controlar a imprensa. A ideia de controle social da mídia não passa de censura à imprensa. O PT não suporta a crítica quando ela vem com fatos contundentes, como aconteceu com o episódio do mensalão e todos esses escândalos que estiveram presentes no primeiro e agora no segundo ano da gestão Dilma Rousseff. A ideia é desqualificar a imprensa para que as denúncias comprovadas sejam consideradas apenas instrumentos políticos de oposição, como se os fatos gravíssimos mostrados pela imprensa tivessem que ser orientados pelo interesse governamental de uma imprensa oficial. A terceira questão é a tentativa de destruir a oposição.

 Tribuna – De que forma?

Jutahy – Sabemos que não existe democracia sem oposição, sem imprensa livre e sem o estado a serviço da população e não a serviço de um único partido. Então, o que estamos fazendo hoje no Brasil e na Bahia também é nos empenhando para impedir essa hegemonia, fazendo com que as oposições se unam em todos os municípios da Bahia, procurando a candidatura de maior viabilidade eleitoral. Nós apresentamos a candidatura de Imbassahy como uma alternativa a essa unidade porque acreditamos que ela representa a segurança de recuperar a cidade dessa desastrosa administração do prefeito João Henrique. João Henrique é o pior prefeito da história de nossa cidade. Nós tivemos prefeitos ruins, mas quando acabavam as gestões, as consequências praticamente se encerravam. Mas essa administração do atual prefeito não vai deixar um legado positivo. Vamos precisar de muitos anos para se recuperar a cidade. A questão do uso e ocupação do solo, a questão de mobilidade e de trânsito, de expansão de áreas construídas sem os devidos projetos na área de saneamento básico, esgoto e água são alguns dos problemas.

 Tribuna – Mas, voltando à sucessão, quais os gargalos para que a unidade das oposições aconteça em Salvador?

Jutahy – Primeiro, que existem três candidaturas absolutamente legítimas. Cada um demonstrando as suas vantagens eleitorais e políticas. Nós temos as pré-candidaturas de Imbassahy, ACM Neto e Mário Kertész, portanto, o que devemos fazer? Em um determinado momento, que não deve demorar muito, mas também não precisa ser com tanta urgência, encontraremos uma solução que eu defendo que seja uma candidatura única entre esses três e, se por ventura isso não for possível, mantermos todos no campo da oposição para estarmos juntos no segundo turno.  

Tribuna – Estamos no meio de março. O senhor acredita que os partidos de oposição estão perdendo o “time” de apresentar um projeto único e robusto de resgate da cidade?

Jutahy – Primeiro eu acho que Imbassahy é um nome muito conhecido em Salvador, praticamente toda a cidade o conhece pelo prefeito que foi e pela sua capacidade administrativa. O ACM Neto é um nome consolidado na cidade de Salvador e o Mário Kertész também. Nós não estamos atrasados.

 Tribuna – Fala-se que o PSDB está fechando acordo com o DEM e que apoiaria ACM Neto em Salvador. Imbassahy seria alçado à condição de vice para dar mais robustez à chapa?

Jutahy – Nossa pré-candidatura é do Imbassahy. Hoje nós estamos trabalhando na ideia de Imbassahy ser o candidato a prefeito, e isso não implica em dizer que em determinado momento não possamos avaliar que a candidatura de Neto ou de Mário seja a que melhor represente essa luta por unidade e vitória. 

 Tribuna – Em meio a tanta polêmica, ainda acredita que exista possibilidade de candidatura única?

Jutahy – É difícil, mas é uma luta que deve ser trabalhada até o último momento.

 Tribuna – Existe um temor da sua parte de o PMDB voltar para os braços governistas, se unindo, por exemplo, com o PCdoB?

Jutahy – Hoje eu vejo essa possibilidade como muito remota, mas eu acho que é fundamental mantermos o PMDB no campo da oposição.

 Tribuna – Quais seriam as consequências nesse caso?

Jutahy – Se o PMDB ingressasse na base do governo, dificultaria muito a nossa possibilidade de vitória.

 Tribuna – Acredita que o repúdio de partidos governistas diante da tentativa de hegemonia do PT pode favorecer as oposições?

Jutahy – No Brasil está começando a acontecer uma mobilização anti-hegemonia do PT. O fato mais importante que aglutinou todo esse sentimento no país foi a decisão do ex-governador José Serra em ser prefeito de São Paulo. Quando ele se colocou na disputa, deu um ânimo enorme a essa mobilização que acontece em todo o país, pois ficou claro que estávamos à beira da conquista da hegemonia petista. É por isso que em vários estados, sobretudo nas capitais brasileiras, há essa movimentação muito forte. Temos ainda candidaturas fortes, espalhadas pelo país, em que o candidato mais viável e forte nesse campo anti-hegemonia, que possa enfrentar e derrotar o PT, seja o escolhido.

 Tribuna – Ainda não está muito claro deputado… O que está inviabilizando o projeto de união das oposições em Salvador?

Jutahy – Nós temos uma realidade muito delicada no estado. Nós, do PSDB, e o Democratas, somos oposição ao governo federal e ao governo estadual. No entanto, o PMDB é oposição ao governo estadual e aliado do governo federal. Essa é a principal dificuldade de nos coligarmos e termos uma aliança já no primeiro turno.

 Tribuna – Há quem diga que o impasse se dá também pela dificuldade de negociação que passaria pelas eleições de 2012 e 2014. Qual o fundamento disso?

Jutahy – Acho que o mais importante nesse momento é nós termos objetivos em comum, baseados na busca por uma democracia fortalecida, com uma gestão eficiente em todo o país. Eu, particularmente, não acredito em projetos que visem apenas o poder, como acontece com o PT. Ou seja, ganhar para manter a hegemonia e continuar controlando os cargos, mantendo os companheiros, controlando tudo. No entanto, você tem que estar atento para construir um projeto em que a população possa ser a principal beneficiada. Até porque, estamos vivendo hoje a cultura do adesismo no Brasil. Nós temos uma situação em que para ser político você tem que ser e pertencer ao governo. Com isso, ficar na oposição só tem sentido para quem tem convicção e clareza dos seus objetivos éticos, ideológicos e de quem você está enfrentando. O que nós queremos para o país? Uma democracia fortalecida, consolidada, em que não haja a tentativa de esmagar a oposição. Só para você ter um exemplo, o (José) Serra teve 44% dos votos no segundo turno da eleição presidencial. Hoje, na Câmara dos Deputados, a oposição não chega a ter 15% dos votos. Ou seja, estamos sub-representados, pois muitos dos que se elegeram conosco foram cooptados, enfraquecendo a democracia do país.

 Tribuna – O presidente da Assembleia Legislativa, Marcelo Nilo (PDT), criticou o PSDB em defesa de Wagner. Como avalia essa postura dele que é um ex-tucano?

Jutahy – Marcelo Nilo é meu amigo pessoal. Somos amigos há mais de 30 anos, desde 1974. Sou compadre dele três vezes, portanto, não quero entrar nessa polêmica com Marcelo. Tanto eu quanto ele temos nossas qualidades e nossos defeitos, e uma das qualidades que nós temos é a de preservamos nossa amizade. Por isso não quero entrar nessa polêmica.

 Tribuna – Como observa a falta de espaço da Bahia no governo Federal?

Jutahy – Você tinha a presidência da Petrobras com um baiano. Tinha a Agência Nacional do Petróleo com um baiano, um Ministério das Cidades e o Ministério do Desenvolvimento Agrário com deputados representantes da Bahia e é obvio que isso era importante para o Estado. A partir do momento que você não tem ninguém em uma função importante, isso enfraquece o Estado.

 Tribuna – Qual sua avaliação sobre a gestão estadual?

Jutahy – O grande problema do governo Wagner é você ter um estado em que as grandes obras de infraestrutura estão sendo postergadas e ou demoram muito para serem executadas. Vamos dar um exemplo mais evidente de todos: qual a maior obra para o Estado da Bahia? A Ferrovia Oeste Leste, com o transporte de grãos de Luis Eduardo até o Porto Sul. Essa ferrovia muitos nem sabe que existe e muitos ainda pensam que está concluída por causa da publicidade que foi feita inclusive com máquinas e com trens nas propagandas. O trecho Luis Eduardo – Caetité não tem um trilho colocado até hoje, não existe absolutamente nada pronto. E o trecho Caetité – Porto Sul está muito atrasado, com dois ou três trechos praticamente paralisados. O Porto nem as obras foram iniciadas. Passou-se oito anos do governo Lula, mais um ano do governo Dilma, e simplesmente a obra não está no ritmo da importância de nossa economia. Em relação às estradas federais, vamos dar exemplos como no Extremo Sul da Bahia. Foi feita a duplicação da BR-101, no Rio de Janeiro, Espírito Santo e só entraram 20 quilômetros na Bahia.  Em relação à privatização malfeita que o governo federal fez, no ritmo em que se encontra a concessão, você só terá a duplicação na Bahia daqui há vinte anos. O trecho Eunápolis-Teixeira de Freitas não está nem no projeto do governo para ser feita a duplicação. O governo do PT fala que não fez privatização, mas fez privatização no setor de petróleo, energia, estradas, só que foram muito malfeitas, e a Bahia está sendo muito prejudicada em relação a isso. Nós temos hoje, na Bahia e no Brasil, uma situação em que a força eleitoral do PT se baseia não em fatores de infraestrutura, com portos, aeroportos, estradas, educação, saúde. Não são esses fatores que fazem a popularidade do governo, mas quatro coisas: controle da inflação; aumento de crédito para consumo; aumento real do salário mínimo e programas sociais. Nós temos hoje uma defasagem gigantesca na Bahia e no Brasil na área de infraestrutura.      

 Tribuna – O senhor falou sobre esse processo de morosidade do governo em servir obras que tragam impacto. A que o senhor atribui isso?

Jutahy – Veja a situação da Bahia. Nós somos hoje o curral eleitoral do programa Bolsa Família. A Bahia é o estado que mais recebe Bolsa Família no Brasil, é o estado que mais atendido é pela lei orgânica da assistência social para idosos e deficientes físicos. Isso mostra o quanto somos dependentes de programas sociais.

Então isso daí é um estímulo à vitória da presidente Dilma na Bahia, onde ela teve 71% dos votos. Esses programas são suficientes para as coisas darem resultados no sentido eleitoral e o que interessa para a população, que é o desenvolvimento de nossa economia, está sempre em segundo plano porque acham que os programas sociais são suficientes para ter apoio eleitoral.

 Tribuna – A vinda de Gabrielli para o governo pode dificultar o projeto da oposição de voltar ao poder no Estado em 2014?

Jutahy – Eu acho que o candidato do governador Wagner não é ele. Meu sentimento é que o candidato do governador não é ele. Eu não vejo Gabrielli como candidato do Wagner.

 Tribuna – Qual a avaliação que o senhor faz em relação à administração do prefeito João Henrique?

Jutahy – João Henrique é o mais desastroso prefeito que a cidade de Salvador já teve. João Henrique é uma fraude.

 Tribuna – O que acha que a população pode esperar do PSDB e das oposições?

Jutahy – Eu acho que devemos fazer um governo que demonstre a capacidade de recuperar a autoestima da cidade, a capacidade de melhorar a prestação de seus serviços e que crie condições de unificar um projeto para recuperar bem a cidade. Todas as três alternativas que a oposição tem são capazes de fazer isso.

 Tribuna – Qual o prazo máximo para que a oposição possa ter uma resposta sobre o projeto de unidade?

Jutahy – O prazo máximo é final de abril. Acho que ainda está em tempo.   

Colaboraram: Fernanda Chagas e Lílian Machado


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