Mais de 700 detentos estão foragidos no Espírito Santo

A população carcerária do Espírito Santo atingiu, no último dia 21, o impressionante número de 13.707 detentos, entre homens e mulheres. Igualmente assustador é o número de presos foragidos das unidades do Estado. Dados oficiais da Secretaria de Estado da Justiça (Sejus) mostram que desde 2008 pelo menos 712 internos deixaram os presídios. E o rosto de cada um deles está em uma página, da própria secretaria, na internet.
Lista de foragidos da Justiça há mais tempo Do total de procurados, cerca de 80% saíram sob a responsabilidade do próprio Estado, após receber algum tipo de benefício temporário, e não retornaram para cumprir o restante da pena. As autorizações são concedidas pela Justiça e previstas em lei. Entre as benfeitorias estão as saídas para passar o Natal em família e para trabalhar, como é o caso dos que estão no regime semiaberto.
“É um direito do detento do regime semiaberto – que preenche todos os pré-requisitos – cinco saídas temporárias de sete dias, por ano. No total, são 35 dias por ano fora do presídio”, destaca o secretário de Estado de Justiça, Ângelo Roncalli.
Roncalli aponta a valorização do trabalho e do estudo dentro das unidades, ainda no regime fechado, como forma eficaz para evitar elevado índice de foragidos, que a secretaria chama de evasão.
“Mudamos os procedimentos. Antes dos presos seguirem para o regime semiaberto, com oportunidade para sair e trabalhar do lado de fora, eles já trabalham e estudam dentro das unidades de regime fechado. Assim, eles atingem a fase de readaptação à vida livre mais confiantes. É um processo de confiança”, explica o secretário.
A utilização de tornozeleira localizadora é vista com reserva. “É uma possibilidade. Tudo o que é novo precisa de tempo para utilização. Nesse caso, não trabalhamos com prazos”, finaliza Ângelo Roncalli.
Estado diz que fugas diminuíram
O Estado conta com 34 unidades prisionais, divididas em níveis de segurança média e máxima. Além das colônias agrícolas, do hospital de custódia, dos centros de detenção provisória e de triagem.
No campo da fragilidade, as unidades de Linhares e de Barra de São Francisco se destacam das demais. “São unidades antigas, que até 2014 vão ser desativadas. Linhares, recentemente, passou por reforma”, justifica Ângelo Roncalli.
De acordo com o secretário, no ano passado nenhum preso fugiu da Penitenciária Regional de Barra de São Francisco. Em 2010, a Sejus registrou uma fuga.
“Esse índice elevado de procurados é herdado do passado. Nos últimos anos o número de fugas reduziu”, ressalta o secretário.
Roncalli garante que o número de presos recapturados subiu. Em 2010, foram 210 recapturados, ano passado 174 e neste ano 34 foram devolvidos às unidades carcerárias do Estado.
Moradores vivem ao lado do perigo
Apesar dos dois quilômetros que separam o Presídio Regional de Linhares do bairro Parque Residencial Jardim Laguna, os moradores da região vivem em alerta por causa das frequentes fugas de presos. Desde 2008 já escaparam 93 presos da unidade. Neste ano, já foram seis, e em 2011 duas fugas.
Para o presidente da Associação de Moradores de Jardim Laguna, Igor Bellucio Santos, o maior medo da população é ficar refém dos foragidos. “O presídio é cercado por lagos e a única passagem é pelo bairro. O medo é de um preso fugir, entrar em uma casa e manter os moradores reféns, ou acontecer uma troca de tiros. Moramos em um parque residencial, mas nossos filhos não têm segurança para brincar”, desabafa.
As rebeliões também preocupam os moradores. Próximo à unidade prisional há um clube muito frequentado. Mas a diversão pode virar pesadelo em poucas horas.
“Já aconteceu de a polícia ir ao clube e mandar todo mundo sair porque tinha acontecido uma rebelião. É constrangedor. Deixamos de nos divertir por causa da violência”, destaca Igor Santos. (Fabricio Marvila)
Superlotação em presídio de Barra de São Francisco
A Penitenciária Regional de Barra de São Francisco fica ao lado de dois bairros: Vila Santa Izabel e Vila Luciene. Com uma vizinhança “da pesada”, moradores do entorno ficam apreensivos e com medo.
Hoje a penitenciária de Barra de São Francisco está superlotada. A unidade abriga mais que o dobro da sua capacidade. Onde deveriam estar 134 presos, existem 320 internos, de acordo com a própria Secretaria de Justiça (Sejus).
A dona de casa Maria Júlia Elias mora em Vila Luciene e diz que não é tranquilo viver próximo ao presídio: “Os presos que vêm de fora da cidade trazem mais preocupações. Tem gente que mora mais perto ainda e fica com mais medo”. Segundo Maria Júlia, os detentos do regime semiaberto são os que mais preocupam, por frequentarem mais o bairro dela.
Na página da Sejus, na internet, há registro de 103 presos foragidos daquela penitenciária. As fugas ocorreram entre 2008 e os primeiros meses de 2012. A Sejus pretende construir novas unidades prisionais no Norte do Estado, para acabar com a superlotação. Projetos estão em fase de seleção.
Cinco fugas em Colatina
Colatina tem um Centro de Detenção Provisória (CDP), um Centro Prisional Feminino e uma Penitenciária Regional. As unidades ficam no bairro Santa Fé, longe de outras comunidades.
A Sejus divulgou, na internet, a lista com cinco presos que escaparam, incluindo uma mulher. Todas as fugas foram no ano passado, nas três unidades locais.
O delegado Fabrício Bragato diz que alguns escapam e cometem os mesmos crimes; outros, cometem crimes ainda piores.
Linhares tem covil do crime dentro de presídio
Os detentos do Presídio Regional de Linhares não precisam escapar das celas para cometer crimes. Tudo é tramado por meio de telefones celulares. O alerta é feito pelo delegado Fabrício Lucindo, titular do Departamento de Polícia Judiciária (DPJ) de Linhares.
“Dentro do presídio existe um verdadeiro covil de detentos que comandam todo tipo de crime, de dentro das grades, por meio de celulares. Nem a apreensão de dezenas de telefones inibe tal prática, sempre tem novos aparelhos. Posso garantir que grande parte dos crimes praticados em Linhares são tramados dentro do presídio e repassados para fora, por celulares”, afirma o delegado.
A Sejus disse que faz operações para apreender celulares e que não recebeu denúncia da delegacia de Linhares.
Foragidos em Cachoeiro raramente são recapturados
Em Cachoeiro de Itapemirim, Sul do Estado, os presos que fogem dificilmente são recapturados durante o trabalho de patrulhamento ostensivo realizado pela Polícia Militar. A informação é do comandante do 9º Batalhão da PM, tenente-coronel Ruy Guedes.
“Não tem sido comum encontrarmos foragidos em operações de rotina, considerando que a população carcerária no Sul é bastante grande”, informou Guedes.
Neste ano, três fugas foram registradas na Penitenciária Regional Cachoeiro de Itapemirim (PRCI), no bairro Monte Líbano. Na ocasião, quatro internos tentaram escapar pulando o muro da unidade, mas um deles fraturou a perna e acabou sendo recapturado.
No entanto, até a última quarta-feira, Adriano Rodrigues Soares, Erivelton Rodolfo e José Victor Cruz Argolo eram considerados foragidos da Justiça.
Pelo menos sete detentos de Cachoeiro escaparam de 2010 até 2012. Eles fugiram da Penitenciária Regional e do Centro de Detenção Provisória – sendo seis da primeira unidade e um da segunda. As duas ficam distantes do Centro da cidade, onde não há
residências próximas. Os dados estão na página online da Secretaria de Estado de Justiça.
O delegado Faustino Antunes, chefe do Departamento de Polícia Judiciária de Cachoeiro, frisou que a situação é mantida sob controle na cidade, porque o índice de fuga nos presídios da região é baixo. “Vez ou outra fazemos recaptura de presos que saem em datas especiais e não retornam. Fugas são mais raras”, destacou.
Fonte A Gazeta