Educação

Secretária diz que imprensa tem olhos de urubu; será que é porque a imprensa a procurou?

28/05/2013 - 18h37

Problemas na Escola Bom Pastor, documentados em foto e áudio, seriam vistos apenas com o olhar “maldoso” da imprensa

“Mas, ainda tem daqueles [tipos de pessoas] que têm dois olhos: o de urubu e o de beija flor. Tem gente que só vê carniça onde só há flores, pois é da natureza dele. E outros que podem estar num bolo de carniça, mas, só veem flores, pois têm uma natureza tão boa. Para você ver como as coisas acontecem. E com a educação é assim: eu tenho um olhar, e você tem outro. Hoje eu fui lá para refletir sobre essas coisas [as problemáticas encontradas na Escola Bom Pastor, assunto pelo qual Isabel Cristina, secretária de Educação, foi procurada pelo Jornal Alerta para dar seu parecer; mas, nos recebeu com este ríspido discurso].”Isabel Cristina educação

Ela [secretária de Educação], com seu suposto olhar de beija-flor, segue sua narrativa contando o que viu ao visitar a escola na quinta-feira (23/5):

“Crianças comendo muito, e, algumas, até dispensando comida. Outras repetindo pratos diversas vezes”. Além do que os olhos da secretária conseguem ver, estava uma dispensa sem sal, e faltava carne.

Ela contou já ter mandado fechar o portão de trás da escola, que estava sem grades. Dando-nos uma informação extra sobre as deficiências encontradas na Bom Pastor, pois, no dia em que a imprensa esteve lá, não percebeu esse portão aberto.

Relatou que pediu a Calheiros (secretário de Segurança com Cidadania do município) que colocasse dois guardas municipais para fazerem o papel de disciplinas [pessoas responsáveis por circular pelo âmbito escolar, mantendo a ordem], principalmente no horário do almoço, para “olharem” as crianças. Já fora atendida.

Isabel contou que há nove caixas de livros GUARDADAS. E que ainda vai reformar a biblioteca. Não tem livro didático e eles estudam com apostilas; a máquina de xérox foi doada recentemente.

Para finalizar, a secretária contou que a escola não é reconhecida pelo MEC.

Após o desabafo da secretária feito a partir de seu olhar de beija-flor, o olhar da imprensa, por ela taxado como de urubu, viu um pouco mais e aqui relata em matéria.ALUNOS PULANDO O MURO (2)

Teixeira de Freitas – Na terça-feira, 21 de maio, recebemos denúncias envolvendo a Escola Municipal Bom Pastor, cuja proposta é oferecer um modelo de educação integrada. Mantida pela Prefeitura de Teixeira de Freitas, o projeto piloto era de a escola funcionar em tempo integral, com um ensino diferenciado, voltado para estudantes com déficit de aprendizagens e defasagem idade/série. O eixo norteador seria promover o bom desempenho educacional que eles não estavam alcançando em outros colégios, sendo que muitos matriculados na Bom Pastor são ‘tri-repetentes’, conforme informou a direção da escola, que contou ainda que a grande maioria apresentava comportamento indisciplinar nas instituições de origem.ALUNOS PULANDO O MURO

A proposta inicial era que o colégio funcionasse das 8 as 16h30, no entanto, está funcionando uma hora a mais. Segundo os professores, os alunos chegam às 7h30 e ficam até às 16h30, mas, até as 17 horas há professores no colégio. No entanto, em entrevista, a secretária de Educação disse que está funcionando de acordo com o combinado no projeto.ALUNOS, AO FUNDO, PULANDO O MURO

No horário do almoço, segundo nos informaram na escola, os professores vão para suas casa – das 11h30 as horas – e os alunos ficam sob a observação de três pessoas: o diretor e dois disciplinas. São, atualmente, 300 crianças, apesar de ter iniciado o ano com 270 e já ter ocorrido expulsões nesses quase 4 meses de funcionamento, muitas crianças novatas foram matriculadas. Conforme a fala de Isabel citada acima, fomos no colégio na terça (21), no dia seguinte já haviam mandado dois guardas municipais para auxiliar na segurança, sobretudo na hora do almoço.ALUNOS

Perguntamos aos alunos como é o dia a dia deles na escola e uma das coisas que nos chamou a atenção é que passam todas essas horas do dia sem tomar banho. Considerando que a maioria estuda em bairros muito distantes do colégio, ficam, aproximadamente, 11 horas sem a higiene básica do corpo, e realizando atividades físicas. Vimos de perto as consequências dessa falta de higienização no estado físico em que se encontram no momento da saída. A diretoria da escola nos disse que não há no projeto proposta para ser inserido um horário e um lugar específicos para banho. Isso foi confirmado por Isabel Cristina. Ela explica que na proposta em outras escolas que funcionam o dia inteiro não consta momento de banho, a menos que os alunos queiram e/ou necessitam. Segundo disse, há no colégio quatro chuveiros.BIBLIOTECA (2)

São servidas três refeições diárias: dois lanches (um pela manhã e outro à tarde) e um almoço. No dia da reportagem as crianças disseram ter comido maçã pela manhã; arroz, feijão, galinha e farofa no almoço; e maçã pela tarde (este último, presenciamos ser servido). Relatamos isso à secretária de Educação e indagamos por que não há um nutricionista responsável pelas refeições da escola, e ela rebateu que o cardápio é preparado por um dos quatro nutricionistas da prefeitura. Afirmou desconhecer tal dieta (apenas com duas frutas durante o dia e mais esse prato sem vegetais e outros nutrientes que as crianças necessitam). Os alunos lancham pelos corredores, como a gente pôde registrar. O almoço, segundo a direção, é servido no auditório, onde foi improvisado um refeitório; não tivemos acesso a ele.BIBLIOTECA VAZIA

Como a secretária disse que foi ao colégio no dia 23 de maio, dois dias depois de estarmos lá, ela pôde perceber que no almoço não tinha carne para os alunos e também faltava sal no colégio. Não sabemos o porquê dessa carência, mas, fomos informados que escola se mantém somente com recursos da Secretaria se Educação do município, uma vez que, não é reconhecida pelo MEC, consequentemente, não recebe recursos do governo federal ou estadual. Porém, o município teve verbas para contratar serviços milionários, como o curso de informática que será oferecido aos professores e alunos da rede municipal, que custou mais de R$ 4 milhões para a prefeitura.BIBLIOTECA

Todo esse tempo que os alunos passam no colégio deveria ser em atividades curriculares e extracurriculares. Da seguinte forma: aulas pela manhã, recreações e reforço à tarde. De acordo à direção, há no colégio aulas no período da tarde de dança; capoeira; pintura; teatro; jogos recreativos; música e reforço escolar. Entretanto, coincidentemente com a reportagem, soubemos que alguns professores deixaram o Bom Pastor nos últimos dias. Quanto às aulas de música, somente agora que chegaram os instrumentos musicais.PÁTIO

Pedido de demissão

A própria diretora da Bom Pastor havia pedido demissão do cargo e transferência para outro colégio um dia antes de chegarmos. Quem assumiu foi o vice-diretor Ariel Santos. Outros profissionais que faltam na escola são: psicólogos, coordenadores pedagógicos, assistentes sociais, profissionais de saúde, como nutricionistas, já que os alunos passam aproximadamente 11 horas por dia, supostamente, na responsabilidade da escola. Também não há médicos, enfermeiros, nem qualquer outra pessoa que fique em alerta caso tenha alguma emergência. Apesar de o colégio ficar em um bairro distante, há um posto de saúde próximo, que serviria, caso houvesse necessidade. E quanto à assistência social, segundo a direção, apesar de não haver um profissional na escola, os assistentes estiveram três vezes no colégio, sempre que foram requisitados por professores.QUADRA (1)

O perfil social do alunado é formado por pessoas de baixa renda, oriundas de bairros carentes. Também há jovens em situação de risco. Alguns já passaram por instituições de apoio, como a Casa Serena.

Nem todos os alunos estavam uniformizados. O diretor disse que já foi feito o pedido e a arte, mas, os alunos têm que usar uniformes velhos de outras escolas, ou, suas roupas do dia a dia por enquanto. São quinze salas em funcionamento, numa média de 20 alunos por sala. Atende ao público de 2º ano ao 4º ano, e, como já dissemos, não tem uma média de idade, já que os alunos são desistentes de outras escolas, repetentes ou expulsos. Conversamos com crianças que disseram ter 12 e 13 anos, que ainda cursam segunda série. Quantos aos uniformes, a secretária de Educação, por sua vez, contou que já foram providenciados, tanto a blusa quanto os shorts e calças.

Há uma sala para biblioteca, mas não há livros. O atual diretor mostrou quatro caixas com algumas revistas, jornais e livretos, que segundo ele é levado aos alunos em alguns momentos, por alguns professores. Perguntamos aos alunos se isso acontece, e eles disseram que quase nunca leem. Isabel Cristina falou que chegaram nove caixas de livros, mas que ainda não foram colocados no espaço que seria a biblioteca. Ela também nos disse algo que não tínhamos descoberto na escola: a falta de livro didático para os alunos.

Quando visitamos a escola, algumas portas estavam sem grades e os alunos tinham facilidade para sair e pular o muro. Dois dias depois soubemos que já foram colocadas grades e que o reforço na guarda está atento aos alunos que tentam pular o muro.

Não há ventiladores nas salas. Falta muito material – o que acarretou em algumas demissões de professores que se acharam sem condições de trabalhar. Segundo o diretor, esses objetos que faltam e os uniformes estão em processo licitatório.

Apesar disso tudo, a secretária de Educação e também o diretor do colégio disseram que foram procurados por pais de alunos que se mostraram gratos e felizes por seus filhos em dois meses terem aprendido a ler, depois de anos sem conseguirem ser alfabetizados em outras escolas. Isabel Cristina diz acreditar na equipe que está sendo formada na escola, e que só tem a melhorar com o tempo.

Falta de acessibilidade

Desde que a escola foi inaugurada que a associação dos portadores de necessidades especiais vem denunciando a falta de acessibilidade, inclusive, há uma série de fotografias feita pela associação disponibilizada no Facebook como protesto sobre a situação.

Tivemos acesso a essas imagens e disponibilizamos para que todos possam observar as condições inadequadas em que a escola foi inaugurada.

Galeria de fotos

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Por Petrina Moreira Nunes / Jornal Alerta


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