A arrogância política e o desprezo pelos eleitores

A arrogância política e o desdém pelos eleitores podem contribuir para ampliar a rejeição e afastar intenções de voto. A convicção de cada pessoa pertence somente a ela. Por isso, não é razoável que candidatos, apoiadores e simpatizantes tratem adversários políticos com hostilidade, superioridade ou desprezo.
Podemos compartilhar ideias, valores e convicções, mas jamais haverá uniformidade absoluta de pensamento. Saber ouvir, respeitar opiniões divergentes e tratar as pessoas com cordialidade são atitudes fundamentais para construir aproximação, ampliar o conhecimento e estabelecer um diálogo verdadeiramente produtivo. Quando, porém, a arrogância fecha as portas, perde-se a oportunidade não apenas de convencer, mas também de aprender.
Essa realidade pôde ser observada no pleito eleitoral recentemente encerrado em sua primeira etapa. Em diferentes momentos da disputa, candidatos e grupos políticos entraram em confronto justamente com aqueles de quem necessitam para conquistar apoio, ampliar suas ideias e, eventualmente, promover mudanças de pensamento e posicionamento.
A convicção de estar sempre certo e de apoiar os melhores candidatos, quando acompanhada de desrespeito aos que pensam diferente, pode transformar o debate político em uma disputa de egos. E quando isso acontece, o diálogo dá lugar à hostilidade, enquanto o eleitor deixa de ser tratado como cidadão e passa a ser visto apenas como alguém que precisa ser convencido ou conquistado.
Vivemos um tempo em que muitos preferem impor suas ideias a ouvir, compreender e construir consensos. A democracia, entretanto, pressupõe convivência com a divergência. Exige disposição para rever conceitos, reconhecer diferenças e buscar caminhos que possam atender ao interesse coletivo.
Respeitar o eleitor não deveria ser uma estratégia de campanha. É um dever de quem pretende exercer uma função pública.
A política não se sustenta apenas em discursos, alianças, estruturas partidárias ou campanhas eleitorais. Ela também depende da capacidade de dialogar com quem pensa diferente. O eleitor não é obrigado a concordar, apoiar ou votar de acordo com a vontade de candidatos, partidos ou grupos políticos.
Quem deseja governar, representar ou ocupar um cargo público precisa compreender que a postura adotada durante uma eleição também comunica valores. A arrogância pode até produzir confrontos, alimentar bolhas e fortalecer convicções entre os já convencidos. Mas o diálogo, o respeito e a capacidade de ouvir são elementos essenciais para construir relações políticas em uma sociedade marcada pela diversidade de pensamentos.
No fim, o eleitor continua sendo o protagonista do processo democrático. E talvez uma das maiores lições de uma eleição seja justamente esta: ninguém é dono da verdade, ninguém é dono do eleitor e nenhuma liderança política está acima do cidadão.