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CRÔNICA Maria Pinheiro, minha mãe, não morreu, ela voltou pra casa (morre a mãe de Edelvãnio Pinheiro)

10/11/2012 - 22h21

Uma borboleta de intenso azul, leve e linda como o céu voou por entre a mata e pousou na janela da casa de minha mãe, quando estive em Itanhém, São Paulo, no início deste ano. Era linda e fugaz como a vida que nos cerca e nos embebe ora de paz, ora de tão indescritíveis sofrimentos. Mas nenhuma tristeza se compara à de perder o maior amor do mundo, o amor calmo, cristalino e incondicional que é o amor de mãe.

Minha mãe, Maria Pinheiro, valsou embalada pela vontade e ternura de viver. Ela enfrentou o mundo com dignidade e força para ser o pai e a mãe dos nove filhos que criou com severidade absoluta. E, mesmo não tendo frequentado a escola, aprendeu a ler e a escrever e ensinou aos filhos o valor da simplicidade das coisas. São heranças eternas que aprendi vivenciando a batalha diária que a minha mãe travava para nos manter e nos educar. São laços invencíveis que nos unem além da vida, são gestos de amor que mesmo traduzidos como sendo inflexíveis e rigorosos nos ajudam a ter o coração bondoso e solidário, nos mostra a verdade sobre ser alguém que cresce praticando a simplicidade e a honradez.

Estes gestos semeados na minha educação fez crescer o homem em que me tornei e assim devo a minha condição de caráter, senso de justiça e honestidade à minha mãe que, austeramente, com mãos de ferro me direcionou a ser alguém nobre e honesto.

Neste sábado, 10 de novembro de 2012, sob o som das batidas solitárias do meu coração minhas lágrimas caem frente ao irremediável. A dor da despedida não possui sinônimo ou explicação que traduzam o dilaceramento da minha alma frente a esta despedida incógnita. Minha mãe que enfrentou três ataques cardíacos e dois acidentes vasculares cerebrais e venceu todos com a força de quem sabe viver, reaprendeu, depois disso, o significado da vida e, lúcida, até o último momento, lutou com bravura.

Lembro-me perfeitamente do último AVC que minha mãe enfrentou. Eu a acompanhei. Ao recobrar a consciência e perceber que estava viva ela desapontou-se. Disse-me com pesar que não queria ter voltado de onde esteve naquelas últimas horas, pois um anjo a havia recebido e que luzes serenas e poderosas a envolveram. Disse ainda que aqui era demasiadamente desconfortável e que o lugar onde esteve era tranquilo e a fazia sentir leve como uma pluma. Diante dessa lembrança retiro os pés e a alma um pouco desse plano e o meu coração se acalma, pois sei que minha mãe que tanto pelejou na terra, vendendo pipoca e algodão doce, agora descansa em paz, no reino sereno e poderoso que ela tão perfeitamente descreveu.

Ficam as lágrimas de meus irmãos Edelvácio e Necy e da minha amável sobrinha Gerusa, que além de mim a apoiaram nesses últimos anos de difíceis caminhadas e a conduziram por todos os lugares possíveis onde pudessem amenizar as dores que ela sentia. Somente Deus, pode soprar a alma de quem esteve verdadeiramente envolvido e trazer a paz do conforto.

Uma borboleta azul voará pelo quintal, pousará na janela com asas luminosas de tão rico azul e me fará lembrar a doçura do colo de mãe e a efemeridade da vida. Agora preciso conter minhas lágrimas e entender que um anjo beijou a fronte da minha mãe Maria Pinheiro e ela voltou para casa. Dedico a ela, com um coração amável de um caçula, esta singela poesia:

MARIA

Pequena réstia de sol

A pedido de Deus

Os arcanjos olham-te longamente

Na mesma intensidade e paz

Como fazem há tempos

És como o vale do Patí.

A mãe indescritível

Uma rosa que a brisa beija de leve

Maria!

Amo-te tanto…

Um dos anjos beija a tua fronte

E vais para casa.

Edelvânio Pinheiro


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