Ex-auditor da “máfia do ISS” de São Paulo é preso em Mucuri após forjar a própria morte para escapar de condenação de 18 anos

Arnaldo Augusto Pereira atuou nas prefeituras de São Paulo e de Santo André, mas foi condenado em 2019, pelo juiz Marcos Alvarenga, da 12ª Vara Criminal de São Paulo, a 18 anos, dois meses e 12 dias de reclusão pelos crimes de concussão (exigir propina) e lavagem de dinheiro. De acordo com a sentença, quando era secretário Municipal de Planejamento de Santo André, ele exigiu e recebeu R$ 1,17 milhão em propina de uma construtora para liberar o alvará de construção de um condomínio residencial de 15 torres em Santo André, no ABC Paulista, entre os anos de 2010 e 2012, período em que o prefeito do município era Aidan Antônio Ravin.
Arnaldo Augusto Pereira foi apontado pelo Ministério Público de São Paulo como um dos mentores da máfia do ISS, que envolvia servidores públicos e empresários em um esquema de cobrança de propinas para reduzir o valor do Imposto Sobre Serviços (ISS) devido por grandes construtoras. Na época, ele ocupava o cargo de subsecretário Municipal de Arrecadação da Prefeitura de São Paulo, durante a gestão de Gilberto Kassab (PSD).
O ex-auditor chegou a ser preso duas vezes, em 2016 e 2017, após ter mentido em uma delação premiada que negociava com o Ministério Público, tentando se beneficiar judicialmente. Mesmo após as prisões, continuou sendo investigado por novos delitos contra o erário econômico municipal.
Do afastamento ao disfarce
Em 2013, após uma série de denúncias e suspeitas de envolvimento em irregularidades, Arnaldo Augusto Pereira foi afastado definitivamente do serviço público e demitido. À época, uma investigação apontava que ele teria recebido até R$ 80 mil em outro episódio do mesmo esquema de corrupção, desta vez já exercendo função em Santo André.
Segundo o promotor Roberto Bodini, responsável pela denúncia que levou à condenação do ex-auditor, o ex-fiscal “deixou a Prefeitura de São Paulo, foi trabalhar em Santo André e continuou atuando nas práticas de corrupção no município vizinho”. Para a Justiça, o fato de Arnaldo ter reiterado condutas criminosas após o primeiro escândalo foi considerado agravante da pena. Conforme os autos, ele recebeu 11 pagamentos de R$ 107 mil cada, realizados por uma construtora, o que foi comprovado por documentos e depoimentos de funcionários da empresa.
A simulação da sua falsa morte
Condenado e com ordem de prisão expedida, Arnaldo Pereira tentou enganar o Superior Tribunal de Justiça (STJ) em agosto de 2025 ao apresentar documentos e atestados falsos que simulavam sua morte, numa tentativa desesperada de escapar da execução da pena. O golpe chegou a confundir as autoridades, tanto que em agosto deste ano, o ministro da 6ª Turma do STJ, Antônio Saldanha Palheiro, chegou a declarar extinta a punibilidade do acusado por conta do suposto falecimento, mas, até que inconsistências em registros de cartórios e declarações médicas chamaram a atenção dos investigadores.
A caçada e a prisão em Mucuri
A partir dessas inconsistências, o caso passou a ser monitorado pelas inteligências da Polícia Militar de São Paulo, que descobriram que o ex-auditor havia fugido para o Nordeste do Brasil, utilizando documentos falsos e uma nova identidade. As investigações apontaram que ele se instalou discretamente no município baiano de Mucuri, na divisa com o Espírito Santo, onde levava uma vida discreta, se passando por corretor de imóveis e onde havia adquirido alguns imóveis comerciais no centro da cidade de Mucuri.
A prisão no dia de hoje (15) foi resultado de uma operação integrada entre as Polícias Militares da Bahia, São Paulo e Espírito Santo, com o apoio do Ministério Público dos três estados. Os agentes localizaram Arnaldo Augusto Pereira em uma casa modesta, onde morava na Rua Bonito, no condomínio Jardim Atlântico, na zona norte de Mucuri. Ele não resistiu à prisão e foi imediatamente conduzido à Delegacia da Polícia Civil, onde de imediato foi lavrada uma oitiva na presença do delegado Daniel Souza, e na sequência conduzido para Vitória (ES), onde ocorrerá a logística da sua transferência até São Paulo para o cumprimento da pena.
Epílogo de uma longa fuga
A prisão encerra uma fuga que durou mais de seis anos, marcada por falsas identidades, fraudes processuais e tentativas de manipular a Justiça. Considerado um dos peixes grandes da máfia do ISS, Arnaldo Augusto Pereira agora deverá cumprir sua sentença em regime fechado, respondendo também por novos crimes, como falsidade ideológica e uso de documento falso, cometidos durante sua fuga. A operação conjunta foi celebrada pelas forças de segurança como um exemplo de integração policial bem-sucedida entre três estados, encerrando um dos capítulos mais escandalosos da história recente da corrupção no serviço público paulista.