Policial

‘Campo de guerra’ em Caraíva: o instagramável vilarejo da Bahia que sofre com avanço de facções

17/03/2026 - 16h39

“Sorria você está em Caraíva”: a casinha verde com porta e janela vermelhas talvez seja uma das mais fotografadas por blogueiros e influencers de viagem no litoral do Brasil.

É mesmo difícil não sorrir quando se está em um pequeno vilarejo praiano no município de Porto Seguro (BA), no encontro do rio com o mar, onde não entram carros, não há asfalto, o clima é ensolarado e os coqueirais se estendem com a faixa de areia.

Mas esse cenário paradisíaco de uma das praias mais desejadas (e caras) do Brasil, que até 2007 não tinha nem luz elétrica regular, tem sido ofuscado por uma violência até pouco tempo inimaginável por ali.

Em 2025, Caraíva viveu situações que expõem o avanço de facções criminosas pelo Brasil para longe dos centros urbanos, com assassinatos, toques de recolher, operações policiais com grande número de mortos e apreensão de dezenas de armas, como fuzis.

Por trás desse cenário, há uma disputa entre um grupo criminoso que cresceu na região nos últimos anos junto ao avanço do turismo e novos faccionados que tentam ocupar a área, segundo moradores e fonte policial ouvidos pela BBC News Brasil.

“Isso aqui virou um campo de guerra”, resume um morador. Os nomes dos entrevistados não serão revelados por questão de segurança.

É um cenário que se repete em outros destinos turísticos badalados no Nordeste brasileiro, como a BBC News Brasil mostrou em relação a Porto de Galinhas (PE), Pipa (RN) e Jericoacoara (CE).

Circulação de turistas com alto poder aquisitivo, festas com consumo de drogas e pouca presença do poder público fazem desses paraísos uma mina de ouro para os grupos criminosos.

“É uma região com o turismo de um poder aquisitivo muito alto, e aí você vê uma disputa para dominar a terra, o espaço e, sobretudo, para poder vender drogas”, comenta o delegado Diego Gordilho, da Polícia Federal em Porto Seguro.

Mas em Caraíva ainda há um outro componente: a vila turística é vizinha a uma aldeia indígena, a Xandó, parte da terra indígena Barra Velha, dentro do Parque Nacional do Monte Pascoal, ponto avistado por Pedro Álvares Cabral ao chegar ao Brasil.

Onde há uma terra indígena, há certas limitações de fiscalização e presença policial do Estado, já que a competência é da Polícia Federal ou das forças armadas. E grupos criminosos têm tentado se aproveitar disso, segundo o delegado Gordilho.

Em toda a região, o extremo sul do litoral baiano, os conflitos entre fazendeiros e indígenas pela posse da terra também são históricos e muitas vezes acabam em tiros e morte.

No fim de fevereiro, por exemplo, duas turistas do Rio Grande do Sul foram baleadas ao passar de carro por um local de disputa de terras entre indígenas e fazendeiros em Prado, cidade vizinha a Porto Seguro.

Agora, além da histórica pressão fundiária, a comunidade de Caraíva também vive a ameaça e presença das facções.

“A violência das facções em Caraíva também está cercada dessa outra violência, a de fazendeiros contra nativos e o povo pataxó”, explica o professor Paulo Dimas Menezes, da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), em Porto Seguro, que pesquisa gentrificação causada pelo turismo na região.

“Sorria você está em Caraíva”: a casinha verde com porta e janela vermelhas talvez seja uma das mais fotografadas por blogueiros e influencers de viagem no litoral do Brasil.

É mesmo difícil não sorrir quando se está em um pequeno vilarejo praiano no município de Porto Seguro (BA), no encontro do rio com o mar, onde não entram carros, não há asfalto, o clima é ensolarado e os coqueirais se estendem com a faixa de areia.

Mas esse cenário paradisíaco de uma das praias mais desejadas (e caras) do Brasil, que até 2007 não tinha nem luz elétrica regular, tem sido ofuscado por uma violência até pouco tempo inimaginável por ali.

Em uma dessas operações na Bahia, em maio de 2025, a morte de Victor Cerqueira, conhecido como Vitinho, abalou a comunidade de Caraíva e revelou na imprensa a violência e conflitos na praia.

“Todo mundo conhecia ele aqui”, diz um outro morador à BBC News Brasil.

As redes sociais foram inundadas por fotos pedindo justiça. A família sempre acusou a polícia de confundir Vitinho, que trabalhava como guia turístico, com um segurança de um traficante.

O inquérito do caso foi concluído no fim de janeiro e remetido à Justiça baiana. Ele corre em sigilo.

Em nota à BBC News Brasil, a Polícia Civil da Bahia disse que as investigações não apontaram erro na conduta dos policiais envolvidos na morte de Vitinho.

Na mesma operação, a Polícia matou em confronto o líder do tráfico local, conhecido como Alongado. A ação levou a um toque de recolher e apreensão de armas que, até então, moradores nem sabiam que havia ali.

“Foi um divisor de águas”, diz um morador.

Fonte: G1


Deixe seu comentário