Política

Música atual: o balançar a bunda que limita o cérebro

09/06/2013 - 16h48
Carla Félix Entrelinhas - banner central

A poesia, a pintura, a música, em suma, as expressões artísticas no geral, sempre exprimem traços do contexto que lhe é contemporâneo. Geralmente, ao lermos um livro, vermos um quadro, ouvirmos uma música, sentimos, lemos naquele objeto artístico, aspectos referentes ao seu contexto histórico de criação. Cabe destacar que a arte não tem compromisso com a realidade circundante, mas, somos seres que nos formamos através de nossas relações com o meio, assim, tudo que sabemos é proveniente de nossas vivências. Desta forma, é impossível ao artista não demonstrar tal contexto em sua arte. Sendo que a vida cotidiana muitas vezes serve como inspiração para as produções artísticas, ou, então, usam a arte para denunciar, criticar, defender os que estão à margem, gritar por liberdade social.

A música é uma manifestação artística que já foi muito utilizada com esta finalidade. Tivemos na década de 1960 a Bossa Nova e a Tropicália, movimentos opositores; enquanto um foi criado pela elite, o outro pelos que se consideravam excluídos por esta vertente musical. Porém, além desta movimentação toda causada pela revolta de um grupo com a hegemonia da MPB daquela época, as letras de músicas de outrora sempre traziam uma carga ideológica muito forte, tratavam de temáticas sérias; ou então falavam de amor, traziam as relações entre homem e mulher de maneira poética, encantavam os ouvintes, muita coisa era metáfora, sugestão, outras ditas de maneira inocente, verdadeiramente bela, despertavam as sensações e emoções, penetravam na alma humana.

Atualmente, a situação deprime os amantes da música. Talvez seja a expressão artística que mais tem sofrido com a tal pós-modernidade e esta total perda de valores pela humanidade, que anda pobre, insensível, néscia, violenta, corrupta, uma catástrofe ambulante. Quase nada mais nos homens é bom, porque quase nada mais é essência, é SER. O ser humano hoje é TER, produzir lucro. O homem atual é uma marionete do capitalismo, sua mente anda ocupada para pensar em ler e fazer poesia, porque música também é poesia. Ao menos era; nos dias atuais não passa de poluição sonora.

Os pais de família que ainda guardam algum resquício de valores éticos e morais, que acreditam que há salvação para esta sociedade, tentam criar seus filhos num ambiente tranquilo, harmonioso, tendo consciência de que se educa com exemplos. Ouvem belas músicas, aquelas que muitos jovens hoje chamam de “brega”, sem saber que as que eles gostam hoje (Quadradinho de 8, Po po pozão, entre outros que nem o nome vale a pena saber), na época dos seus pais não tocavam nem no local que se chama BREGA (casa de prostituição). Porque até lá, antigamente, havia mais respeito do que o encontrado com a geração atual. Até as canções de balançar o traseiro eram mais ‘cult’, por assim dizer…

É triste, nesta perspectiva, pensar que a música pode demonstrar aspectos de dada sociedade, pois se assim o é, dá medo imaginar o que se passa em nosso contexto social do século XXI, já que a maioria das letras das composições atuais não tem nada de belo, de poético, mas tudo de sacanagem, bandidagem, promiscuidade, chegam a envergonhar aos que, por ventura, não se deixaram contaminar pela nova estética da arte: a exposição do corpo, a extinção dos valores e a apologia aos maus costumes. Saliento que existem muitas pessoas que ouvem o que o ‘DJ’ toca em festas diversas, e com razão. Afinal, é impossível dançar ouvindo Nona Sinfonia de Beethoven. Adequações, lógico. No entanto, você não precisa ouvir excremento musical que fala de sexo, drogas, violência em sua casa, sobretudo se tiver filhos. O ceio familiar é o ambiente formador par excellence, é o primeiro contato da criança com o mundo, e, por isso, tudo que lá ocorre deve ser pensado para formar um cidadão pensante, atuante, e presenciar os pais bebendo e ouvindo ‘pancadão’ não é o ambiente mais fomentador de criticidade; salvo raras exceções, lógico!

Esta colunista, por exemplo, cresceu ouvindo Amado Batista, Roberto Carlos, Léo Canhoto e Robertinho, Fagner, 14 Bis, Byafra, Amelinha e muitos outros cantores incríveis, compositores-poetas ímpares. Aprendi muito pesquisando para entender letras primorosas, que contextualizam com obras literárias, fatos históricos. Até hoje ouço todos eles, e acrescentei Legião Urbana, Skank, Sandy, Maria Gadú, Ana Carolina, Jorge Vercilo… Tudo que eu ouço presta?! Sob o ponto de vista de muitos, não. Claro que, para alguns alienados, os desejos musicais que os fazem balançar a bunda são perfeitos, mas, desculpa, prefiro ficar com aquilo que ainda pode ser chamado de música, pois nos faz exercitar o cérebro. Embora eu saiba que “seria mais fácil fazer como todo mundo faz, caminho mais curto, produto que vende mais”, prefiro viver em “outras frequências” (Engenheiros do Hawaii).

 Carla Félix é formada em Letras Vernáculas pela Uneb/Campus x. Revisora, redatora e editorialista; atua em jornal e sites de notícias da cidade.


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