Destaque

Afegão passa 7 anos preso por matar esposa, mas ela estava viva

28/05/2016 - 14h00

Prisão

O caso de um homem que passou sete anos na prisão por ter matado e queimado sua esposa, que na verdade continua bastante viva, mostrou mais uma vez a fraqueza da Justiça do Afeganistão.

Abdul Kader (53 anos), foi preso em 2009 acusado de queimar e matar sua esposa, Najiba, no salão de beleza que ela gerenciava na província ocidental de Herat.

A polícia encontrou o corpo carbonizado e irreconhecível de uma mulher que a família da esposa enterrou como se fosse de Najiba, cujo pai denunciou que sua filha tinha sido assassinada pelo marido e o entregou à polícia.

Quando vi o que tinha acontecido com minha mulher, sua família me atacou, me bateu e me entregou à polícia, não me deixaram dizer nem uma só palavra“, disse Kader, que saiu de prisão em abril, à Agência Efe.

O vendedor ambulante passou por três instâncias judiciais antes de ser condenado a 16 anos de prisão.

Trataram-me como um animal nos tribunais, ninguém ouvia minhas palavras, repeti nos três tribunais: sou inocente, mas ninguém acreditou em mim e me mandaram para a prisão“, disse.

Após sete anos preso, Kader foi libertado, retornou para sua casa com seus filhos, e há seis dias recebeu o telefonema de uma mulher não identificada pedindo que se encontrassem em um parque próximo.

Quando cheguei ao parque vi que a mulher era minha esposa, Najiba. Desmaiei“, disse.

Quando voltou a si, Najiba contou que no dia do crime foi sequestrada por seu pai e irmãos e enviada ao Irã, onde passou os últimos sete anos, ameaçada por sua família, que disseram que tinham matado uma mulher e que se ela retornasse eles seriam presos.

Najiba retornou a Herat após saber que seu marido tinha sido libertado“, contou à Efe Abdul Khalil, irmão mais novo de Kader.

O falso culpado diz que está feliz por ter sido solto, mas agora – no que poderia parecer uma brincadeira de mau gosto – teme que algo possa acontecer com sua mulher.

Kader e sua família denunciaram o caso à polícia de Herat e exigiram que o presidente afegão, Ashraf Ghani, faça justiça a ele e seus quatro filhos, três meninas e um menino, que passaram sete anos sem os pais.

Nada pode devolver os sete anos que passei na prisão“, disse sobre um caso com muitas incógnitas, como a identidade da mulher morta e como tanta gente pôde cometer tantos erros.

O porta-voz da Polícia de Herat, Abdul Raouf Ahmadi, confirmou os detalhes do caso e disse que foi aberta uma investigação que levou à detenção de cinco pessoas, incluindo o pai e três irmãos de Najiba.

A investigação revelará se foi um complô, assim como a identidade da mulher morta“, disse, ao admitir que ele mesmo ficou comovido com o caso.

Na sua opinião, tudo o que aconteceu, desde a condenação dos tribunais aos erros do departamento de investigação ao determinar a identidade da vítima, “é estranho“.

A opinião de Ahmadi é compartilhada por organizações de direitos humanos e inclusive legisladores afegãos, que consideram o caso uma “vergonha“.

Um relatório divulgado em fevereiro pela Transparência Internacional revelou que a Justiça afegã é considerada a instituição “mais corrupta” de um país que é classificado como um dos três mais corruptos do mundo.

Na opinião da Transparência, a Justiça é profundamente influenciada pelos políticos e precisa de uma “reforma completa“.

O governo afegão ainda não aplica o código processual palavra por palavra. Vimos muitos casos, inclusive de pena de morte, nos quais o tribunal violou gravemente o código processual“, disse à Efe Ahmad Shuja, investigadora da ONG Human Rights Watch no Afeganistão.

O deputado por Herat no Parlamento afegão, Saleh Muhammad Saljoqi, destacou que a história de Kadernão é o único caso” e responsabilizou abertamente a corrupção.

Há muitos presos que recebem penas desproporcionais por crimes menores por culpa da corrupção, há presos que vão para a prisão por meras acusações de crimes sem provas, enquanto os culpados desfrutam da impunidade“, lamentou.

É uma maldição para nosso povo“, acrescentou, ao ressaltar que esta situação se transformou em uma cultura, em que os inocentes são enviados a prisões perigosas e, quando e se, descobrem que não são culpados recebem apenas um simples pedido de desculpas e é só.

Os promotores e juízes envolvidos no caso de Kader deveriam passar anos na prisão como exemplo para outros funcionários“, finalizou.


Deixe seu comentário