De ACM Neto a Jerônimo: a guinada política de Marcelo Belitardo levanta perguntas em Teixeira de Freitas
Confere na íntegra:
Prefeito, eleito e reeleito em um campo político de oposição ao PT, agora sobe no palanque de Jerônimo Rodrigues e declara apoio à reeleição do governador
A política de Teixeira de Freitas assiste a uma mudança de posicionamento que dificilmente passa despercebida. Marcelo Belitardo, prefeito do município e ainda filiado ao União Brasil, legenda associada ao grupo político de ACM Neto, agora aparece publicamente ao lado do governador Jerônimo Rodrigues (PT) e declara apoio à sua reeleição.
A mudança não é apenas partidária ou circunstancial. Ela representa uma alteração significativa no discurso político que marcou a trajetória recente do prefeito.
Belitardo foi eleito prefeito em 2020 pelo então Democratas, partido que integrava o grupo de ACM Neto, e conseguiu a reeleição em 2024. Na eleição estadual de 2022, esteve alinhado ao grupo de oposição ao PT.
Agora, em 2026, a cena é completamente diferente: o prefeito participa de uma carreata de Jerônimo em Teixeira de Freitas, aparece ao lado do governador, de Rui Costa e de Jaques Wagner e ostenta o número 13.
A pergunta que fica é simples: o que mudou?
Uma mudança que exige explicações
Não há nada de extraordinário no fato de um político mudar de posição. A política é dinâmica, alianças são refeitas e grupos podem se aproximar ou se afastar.
O que chama atenção, neste caso, é a dimensão da mudança.
Belitardo não apenas passou a dialogar com o governo estadual. Ele tornou público seu apoio à reeleição de Jerônimo Rodrigues, participando de um ato político do governador.
Ao mesmo tempo, continua filiado ao União Brasil, partido que está em campo político adversário ao governador.
A situação produz um contraste difícil de ignorar: um prefeito eleito e reeleito sob uma determinada orientação política agora participa ativamente do palanque do grupo que antes estava do outro lado da disputa.
E, até aqui, a justificativa apresentada publicamente está concentrada nos interesses de Teixeira de Freitas e nos investimentos realizados pelo Governo do Estado.
Desenvolvimento do município ou mudança de projeto político?
É perfeitamente legítimo que um prefeito procure manter boas relações com o governador em benefício da população.
Obras, investimentos, convênios e recursos públicos não deveriam depender de alinhamento partidário. Um gestor municipal tem obrigação de buscar diálogo com diferentes esferas de governo.
Mas existe uma diferença entre manter uma relação institucional e declarar apoio eleitoral.
No caso de Belitardo, a aproximação ultrapassou a esfera administrativa.
Ele passou a apoiar publicamente a candidatura de Jerônimo e participou de uma carreata eleitoral do governador.
Por isso, a justificativa de que a mudança ocorre exclusivamente em razão dos interesses do município não responde, por si só, a todas as perguntas que surgem diante do novo posicionamento.
Se o motivo é administrativo, por que a mudança também se tornou eleitoral?
É uma pergunta que o eleitor tem o direito de fazer.
De ACM Neto ao número 13
A simbologia da mudança também é evidente.
O prefeito que construiu sua carreira recente em oposição ao grupo petista agora aparece em uma manifestação política do PT e seus aliados, usando o número 13.
Não se trata de uma pequena alteração de discurso.
É uma mudança de campo político que envolve dois grupos que estiveram em lados opostos nas últimas eleições estaduais.
E justamente por isso seria razoável esperar uma explicação mais clara sobre os motivos que levaram Belitardo a abandonar o alinhamento político anterior e abraçar o projeto de reeleição do governador.
Até o momento, o argumento apresentado é o de que Teixeira de Freitas precisa dos investimentos do Estado.
O argumento pode explicar a necessidade de aproximação institucional. Mas deixa em aberto a explicação para a adesão eleitoral.
A candidatura de Penélope também entra no cenário
A mudança ocorre ainda em um momento eleitoral particularmente importante para a família Belitardo.
Penélope Belitardo, esposa do prefeito, é candidata a deputada estadual pelo PDT nas eleições de 2026.
Sua candidatura coloca diretamente o grupo político familiar na disputa por espaço na Assembleia Legislativa da Bahia.
Nesse contexto, a aproximação de Marcelo Belitardo com Jerônimo ganha ainda mais repercussão política.
Não é possível afirmar que o apoio ao governador tenha relação direta com a candidatura da esposa sem evidências que comprovem essa ligação.
Mas é impossível ignorar que os dois movimentos acontecem dentro do mesmo cenário eleitoral.
E isso naturalmente desperta questionamentos.
A velha política de alianças?
A política brasileira é marcada por mudanças de alianças, aproximações entre antigos adversários e rearranjos de grupos.
Isso não é ilegal nem necessariamente incompatível com o exercício de um mandato.
Mas existe uma questão que vai além da legalidade: coerência política e transparência com o eleitor.
Quem votou em Belitardo em 2020 e em 2024 o fez dentro de determinado ambiente político, marcado por um discurso de oposição ao grupo petista.
Agora, esse mesmo eleitor vê o prefeito apoiando o governador Jerônimo Rodrigues.
É natural, portanto, que parte da população queira saber quais acontecimentos provocaram essa mudança.
O eleitor não precisa necessariamente concordar com a nova posição. Mas merece conhecer as razões que levaram o seu representante a mudar de caminho.
O que o prefeito precisa explicar
A questão central não é simplesmente ter mudado de lado.
A questão é por que mudou.
Quais foram os motivos políticos?
Houve divergências com o grupo de ACM Neto?
Quando ocorreu o rompimento?
Quais foram os fatos que levaram à aproximação com Jerônimo?
Por que permanecer no União Brasil enquanto apoia publicamente o governador petista?
E qual é exatamente a relação entre essa nova aliança e o projeto eleitoral de Penélope Belitardo?
São perguntas legítimas dentro de uma democracia.
Não cabe ao eleitor apenas assistir à mudança de palanque. Cabe também aos políticos explicar as razões de suas decisões.
Uma guinada que não passa despercebida
Marcelo Belitardo tem todo o direito de redefinir suas alianças e escolher quem pretende apoiar.
Mas o eleitor também tem o direito de questionar.
A política pode mudar de direção. O que não pode desaparecer é a explicação.
De um lado, está o histórico político de Belitardo, construído em oposição ao grupo petista e próximo ao campo liderado por ACM Neto.
Do outro, está o cenário atual: o prefeito continua no União Brasil, mas declara apoio à reeleição de Jerônimo Rodrigues e participa de uma carreata ao lado das principais lideranças do grupo governista.
A mudança está diante dos olhos do eleitor. O que ainda precisa ser esclarecido, com maior profundidade, são as razões que levaram Marcelo Belitardo a sair de um campo político e se aproximar justamente daquele que, até pouco tempo atrás, representava o lado oposto.
Em política, mudar de posição é possível.
Explicar a mudança é uma questão de transparência.